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15 maio, 2021

[Livro] Aprendendo a Viver (65 d.C.)/Sêneca - Parte 3

 





· Tudo isso faz parte do percurso de uma longa vida, como a poeira, a lama e a chuva durante uma viagem.





· Tudo o que vem da riqueza não gera frutos, não proporciona satisfação, se o possuidor não possuí a si próprio e não toma posse do que lhe pertence. É uma tolice, Lucílio, pensar que a riqueza pode nos fazer algum bem ou mal; ela apenas fornece material para os nossos bens e nossos males; os elementos daquilo que juntos a nós poderá se desenvolver em bem ou em mal. Bem mais poderosa que a fortuna é nossa alma. Para o melhor ou o pior, é ela quem conduz os nossos destinos, é ela a responsável pela nossa felicidade ou miséria.





· Desprezível é a alma obcecada pelo futuro, é infeliz antes da infelicidade, deseja ter para sempre as coisas que lhe causam prazer. Não terá descanso, e a necessidade de querer conhecer o futuro lhe fará deixar de lado o presente que poderia ser melhor desfrutado. Temer a perda de algo é o mesmo que já não tê-lo mais consigo.

Não pensa que eu sou a favor da indiferença. Foge dos perigos. Fica atento a tudo que pode ser previsto. o que for que ameaça, não espera que te atinja, passa longe. Nessa situação, a confiança em ti e o firme propósito de tudo suportar serão muito importantes.







· Para minimizar os efeitos dessa perda, de que dispomos? De guardar a lembrança do perdido e, assim, não deixar desvanecer o que de proveito se tenha tido com o que se foi. Se a posse vai embora, fica para sempre o privilégio de ter possuído. Muito ingrato é aquele que, quando não tem mais nada, imagina nada dever por aquilo que tenha recebido. A sorte tira o objeto, mas deixa o fruto que nossas queixas nos fazem perder.



· Enfim, é estúpido lamentar-se da saudade, já que o espaço que separa aquele que se perdeu daquele que o deseja é mínimo. Precisamos ter a certeza na alma de que seguiremos aqueles que perdemos.





· Ninguém deveria fazer promessas para o futuro. Mesmo que já possuímos pode nos escapar e, nessa hora, que pensamos estar bem, um mal pode nos arrasar. O tempo transcorre segundo leis imutáveis, é certo, mas obscuras. E que me importam as certezas da natureza se eu permaneço na incerteza?



· Em verdade, só se concentram no futuro aqueles que estão insatisfeitos com o presente. Ao contrário, se eu estiver satisfeito com o que tenho, quando a mente souber que não existe diferença entre um dia , a alma visualizará, do alto, o conjunto dos dias e dos acontecimentos que estão por vire apenas sorrirá. De que maneira a inconstância e a mudança do acaso podem perturbar aquele que permanece estável na instabilidade?





· Quem vive na esperança do amanhã deixa escapar o presente. Assim, se aproxima de um desejo insaciável acompanhado de um sentimento miserável que torna as coisas mais miseráveis, ou seja, o pavor da morte.



· A natureza despoja tanto quem entra quanto quem sai.



Não te é permitido levar mais do que tens, e até o que trouxeste para a vida ao nascer aqui deverá ser deixado. Perderás a pele, o mais superficial de teus envoltórios; perderás a carne e o sangue que corre pelo teu corpo; perderás ossos e os nervos, aquilo que sustenta as partes informes e flácidas de teu corpo.

Esse dia que temes como ultimo será o de teu nascimento para a eternidade. Deposita o teu fardo.





· Mesmo a paz te causará temor. Uma mente perturbada não confiará nem mesmo nos fatos mais óbvios, pois o sentimento incontrolável do medo, que ela sempre sofre, acaba por torna-la totalmente insegura.



· O campo de toda a atividade deve ser o estudo, e no meio dos sábios, para relembrar a verdades adquiridas e para descobrir novas. Assim, é dever retirar a alma de sua terrível escuridão, libertá-la. Enquanto ignorares o que deve ser evitado e deve ser procurado, o que é imprescindível e o que é supérfluo, o que é justo e o que é injusto, o que é honesto e o que não é honesto, jamais viajarás , será apenas um errante.





· Não há, com certeza, nenhuma diferença, Lucílio, entre não desejar e possuir. Nos dois casos, o resultado é idêntico, isto é, não há sofrimento. Também não te recomendo que negues algo à natureza – ela é contumaz, não pode ser vencida e reclama o que lhe pertence - , mas que saibas que o excedente na natureza, longe de ser indispensável, apenas está a nosso dispor como algo a mais, não imprescindível.



· O que preferes: ter muito ou ter apenas o suficiente? Aquele que tem muito deseja ter mais, o que prova não ser suficiente o que já possui. Aquele que possui o suficiente obteve o que o rico jamais poderá atingir, ou seja, o fim de seus desejos.



· Jamais é pouco o suficiente, jamais é muito o que não satisfaz.





· O dinheiro nunca tornou alguém rico; ao contrário, sempre causou mais cobiça. Queres saber por quê? É porque quem mais tem mais quer ter.



· Avalia todas as coisas pelos desejos naturais, aqueles que podem ser satisfeitos de graça ou por pouco preço; jamais confunde os vícios com desejos.



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28 abril, 2021

[Livro] Aprendendo a Viver (65 d.C.)/Sêneca - Parte 2

 



Guarda contigo essas palavras: nunca um sábio age mais do que quando se encontra compenetrado acerca das coisas divinas e humanas.

Muitos passam pelas coisas abertas e buscam aquelas escondidas e obscuras; as coisas seladas estimulam o furto. Se algo se mostra a qualquer um, parece de pouco valor; o arrombador despreza o que está aberto. Esse costume tem o povo e, do mesmo modo, todos os ignorantes: desejam penetrar nas coisas secretas.


Crítica a ti mesmo, pois assim te acostumarás a dizer a verdade e a ouvi-la. Trata com maior rigor aquilo que tu sentes como mais débil no teu caráter.

Como sabes, a vida nem sempre deve ser retida, pois o bom não é viver, mas sim viver bem. Por isso, o sábio viverá o quanto for necessário e não o quanto puder.


Verá aonde deve ir, com quem, de que modo e o que deve fazer. Ele pensa na qualidade da vida e não na sua duração. Se muitas adversidades ocorrem e perturbam a sua serenidade, ele se afasta. E não faz isso em caso de extrema necessidade, mas sim quando começa a duvidar da sorte; ele diligentemente examina se não deve deixar de viver. 

Não considero importante se buscar ou aceitar o seu fim, se virá mais cedo ou mais tarde. Não teme uma grande perda; ninguém pode perder grande coisa naquilo que se escorre gota a gota. Morrer mais cedo ou mais tarde não importa, importa é morrer bem ou mal. Morrer bem é fugir do perigo de viver mal.

· Eu esperarei a crueldade da doença ou do homem quando posso sair através das tormentas e despistar as adversidades? Este é único ponto sobre o qual não podemos nos queixar da vida: ela não prende ninguém. 

As condições humanas estão assentadas em bases sólidas, pois ninguém é infeliz a não ser por sua culpa. Te agrada? Vive. Não te agrada? És livre para regressar de onde vieste.


· Queres ser livres em relação ao próprio corpo? Habita-o, pois, como se fosses migrante. Propõe-te que, cedo ou tarde, esta companhia virá a faltar: mais forte te sentirás quando tiveres que deixa-lo. Mas de que modo pensarão no seu fim aqueles cujos desejos por todas as coisas não tem fim?


· Deve-se preferir a mais imunda morte à mais limpa servidão.

· Não existem obstáculos para quem deseja deixar a vida. A natureza nos mantém em cárcere aberto. Quando as necessidades permitem, busque-se uma saída fácil; quando se tem em mãos muitas saídas possíveis, deve-se fazer a escolha e considerar o melhor modo de se libertar; quando a ocasião é difícil, deve-se considerar a melhor, a que estiver mais próxima, seja inaudita ou insólita. A quem não falta coragem para a morte não faltará também imaginação.


· Seria uma viagem incompleta se parássemos na metade ou antes do lugar estabelecido? A vida não é incompleta se é honesta. Onde quer que pares, se parares bem, estará completa. Muitas vezes, pois, há que acaba-la por motivos fortes; na verdade, não são mais importantes as causas que nos mantêm vivos.

· Não existe caminho sem fim.


· Tal como uma fábula, assim é a vida: não interessa pelo que dura, mas por quão bem foi vivida. Não importa onde irás parar. Onde quiseres, para; apenas lhe impõe um bom desfecho.


· Devemos evitar apenas escrever e apenas ler, pois se só escrevemos esgotaremos nossas forças (falo do trabalho de escritura), enquanto somente escrever fará com que se diluam. É necessário passar de um exercício para outro com justa medida, a fim de que a escritura organize tudo que foi recolhido na leitura.


· Também devemos imitar as abelhas, e tudo e tudo que acumularmos com nossas diferentes leituras devemos ordenar(melhor se conservam as coisas, se estão em lugares certos) e, após, com todo o nosso esforço e a nossa inteligência, unir em um só saber todos os diversos conhecimentos, de forma a que se consiga perceber a sua origem e possa demonstrar, igualmente, a sua transformação. Podemos percebe que a natureza faz o mesmo com o nosso sem que o percebamos.


· “deixe de lados essas coisas atrás das quais os homens correm. Deixa as riquezas, perigo e fardo para aqueles que as possuem. Renuncia aos prazeres do corpo e da alma; eles amolecem e debilitam. renuncia à ambição, coisa vã e pomposa, que não tem limite e nem freio, procurando sempre ultrapassar os que caminham à frente ou ao lado, atormentada pela dupla inveja. Sabes bem como é ruim invejar e ser invejado.”


· O que é mais correto, pergunto, obedecer à natureza ou ser obedecido por ela? O que importa sair antes ou depois de um lugar de onde deveremos todos sair um dia? O que importa não é viver muito, mas viver com qualidade. Com efeito, viver muito tempo quem decide é o destino. Viver plenamente, o teu espírito. A vida é longa se for vivida com plenitude. Assim, ela está plena quando a alma tomou posse do bem que lhe é próprio e não depende senão de seu poder.


· Queres saber qual é a vida mais longa? Aquela que tem seu fim na sabedoria. Chegar a esse ponto é atingir o fim mais longínquo e também mais elevado. Assim, o homem pode celebrar audaciosamente, prestar homenagem aos deuses e, dentre os deuses, a ele próprio, fazendo com que a natureza agradeça-lhe pelo que é, pois devolver a ela uma vida melhor que a recebida. Estabeleceu o tipo ideal do homem de bem, demonstrou sua qualidade e magnitude. Se algo mais fosse acrescentado a seus dias, apenas conseguiria levar adiante o se passado.


· Tu ficas indignado e te queixas! Não compreendes que todo mal provém não do que te acontece, mas sim de tua indignação e de tuas reclamações? Do meu ponto de vista, não existe miséria para um homem a não ser a de achar que algo que faz parte da natureza das coisas não está correto.


_________________________ continua...

03 março, 2021

[Livro] Aprendendo a Viver (65 d.C.)/Sêneca - Parte 1

 


Da futilidade das meias-medidas

Certas coisas só se mostram para quem está presente;

O gladiador se decide na arena;


Não basta estar presente, mas permanecer vigilante e observar a ocasião propícia, deves procurar encontra-la e, se a vires, deves prendê-la e, com todo ímpeto, todas as forças (...).

A ninguém é necessário seguir o curso da felicidade: já é alguma coisa não a contrariarmos, nos opor ou resistir ao sermos levados pela sorte.

Morremos piores do que nascemos. E a culpa é nossa, não da natureza. Esta tem o direito de se lamentar conosco: “E agora?”, diz, “eu gerei a todos sem desejos, sem medo, sem superstições, sem perfídia, sem outros males: saiam da vida como entraram”.

Ninguém se preocupa em viver bem, mais em viver muito; porém, todos podem agir de modo a viver bem mesmo que não saiba por quanto tempo.


Da Viagem


Mesmo que atravesses o vasto mar, mesmo que, como diz nosso Virgílio, "se percam a terra e as cidades”, os vícios te seguem e te perseguem a onde quer que vás.

Por que te admiras de que em nada as viagens te beneficiem quando te levas contigo? Vai atrás de ti a mesma causa que te faz fugir.” (Sócrates) - A quem pode ajudar a novidade das terras? A quem o conhecimento das cidades ou dos lugares? Toda essa agitação é em vão. Perguntas por que essa fuga não te ajuda; tu foges de ti mesmo. É o peso da alma que deves deixar: antes disso, nenhum lugar te agradará.


Mais importante não é o lugar, mas o estado de ânimo, pois o ânimo não se torna escravo de nenhum lugar. Vive com essa convicção: “Não nasci para um único lugar, a minha pátria é este mundo inteiro".


“Ter consciência dos próprios pecados é o início da salvação.”(Epicuro)


Do Canto das sereias


(...) os bens são misturados às virtudes e os males aos vícios.

Não rejeitar o trabalho ainda é pouco; deves buscá-lo.

(...) nem a beleza e nem a força podem te fazer feliz, nada resiste ao tempo.


Do Progresso

Isso é salutar, não conversar com os que são diferentes de nós e que têm aspirações outras que não as nossas.

Eu escolho para ti o domínio sobre ti mesmo, e que a tua mente, agitada por vagos pensamentos, se afirme e torne convicta, de modo que encontre prazer em si mesma e conheça os bens verdadeiros, aqueles que passam a nos pertencer assim que compreendemos quais são, não sendo necessário aumentar o número de anos.


Do senhor e do escravo

(...)mais estúpido quem julga um homem pela vestimenta e pela condição social, que não passa de uma cobertura externa.

Nenhuma escravidão é mais vergonhosa do que a voluntária.


Da brevidade da vida 


É próprio de quem está em segurança e viaja comodamente procurar minúcias. Porém, quando o inimigo está em nosso encalço, e o soldado recebeu a ordem de se mover, a necessidade se desfaz de todas as coisas inúteis.


Da asma e da morte


“O que é isso?”, perguntava. “Por que tão frequentemente a morte me experimenta? Prossiga, pois eu também a tenho experimentado muito”. “Quando?”, perguntas. Desde antes de nascer. A morte a não existência. O que quer que isso seja, depois de mim, será o mesmo que foi antes de mim. Se nisso existe algum tormento, é necessário que também houvesse antes que viéssemos a luz; porém, naquela ocasião não sentimos nenhum constrangimento.


Peço que me digas: tu julgarias muito estúpido quem pensasse estar em situação pior uma lanterna depois de apagada que antes de ser acesa? Nós também nos acendemos e nos extinguimos; no intervalo, padecemos alguma coisa; nos dois extremos ficamos impassíveis.

Foge da necessidade, porque ela o obriga a fazer aquilo que ela quer.


Das preces nocivas 


Vive quem é útil a muitos, vive quem é útil a si mesmo; aqueles que se escondem e se entorpecem assim estão em sua casa como numa sepultura. No mármore podes escrever o seu nome; no entanto; no limiar de suas casas, já anteciparam a sua morte.


Das boas companhias

O caminho mais rápido para a riqueza é desprezá-la.


Do pesar pelos amigos falecidos


Se alguém, tendo sido espoliado de sua única túnica, preferisse chorar a buscar um modo de proteger-se do frio e encontrar algo para cobrir suas costas, não te pareceria muito estúpido?


-------------------------------------------------continua...