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14 abril, 2021

[Livro] A Bíblia (2007)/ Karen Armstrong - Parte 3



Nos primeiros anos do século I, o grande sábio fariseu Hillel viera da Babilônia para Jerusalém, onde pregou ao lado de seu rival Shamai, cuja versão do farisaísmo era mais rigorosa. Diz-se que um dia um pagão aproximou-se de Hillel e prometeu converter-se ao judaísmo caso ele conseguisse resumir toda a Torá enquanto se equilibrava numa perna só. Equilibrando-se numa perna só, Hillel respondeu: “Não faz a teu próximo o que for odioso para ti mesmo. Esta é toda a Torá, e o restante não passa de comentário. Vai estudá-la.” Esse foi um espantoso e deliberadamente controverso exemplo de midrash. A essência da Torá era a recusa disciplinada de infligir dor a outro ser humano. Tudo mais que estava nas Escrituras era meramente “comentário”, uma glosa à Regra de Ouro. 

No fim da exegese, Hillel pronunciou um miqra, um chamado à ação: “Vai estudá-la!” Quando estudavam a Torá, os rabinos deviam tentar revelar o núcleo de compaixão que residia no coração de toda a legislação e das narrativas nas Escrituras – mesmo que isso significasse torcer o sentido original do texto. Os rabinos de Yavneh eram seguidores de Hillel. O rabino Akiba, o sábio mais importante do fim do período Yavneh, declarou que o princípio básico da Torá era o mandamento que consta no Levítico: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Somente um dos rabinos contestou isso, afirmando que as simples palavras “Este é o legado dos descendentes de Adão”, eram mais importantes porque revelavam a unidade de toda a raça humana.

O estudo da Torá não era uma atividade solitária. O rabino Berachiah, um sábio palestino do século VII, comparou a discussão rabínica com uma peteca: “As palavras voam para um lado e para outro quando o sábio chega a uma casa de estudo e discute a Torá, um expondo sua opinião, outro expondo outra opinião, e um terceiro expondo uma opinião diferente.” Contudo, havia uma unidade fundamental, porque os sábios não estavam meramente expressando suas próprias opiniões: “As palavras desses e dos outros sábios eram todas dadas por Moisés o Pastor a partir do que ele recebeu do Único do Universo.” Mesmo quando envolvido num acalorado debate, o estudante verdadeiramente empenhado sabia que tanto ele quanto seu oponente de alguma maneira participavam de uma conversa que se estendia no passado até Moisés e continuaria no futuro, e de que o que ambos diziam já havia sido previsto e prometido por Deus.

Agostinho não era um lingüista. Não sabia hebraico e não poderia ter conhecido o midrash judaico, mas chegara à mesma conclusão que Hillel e Akiba. Qualquer interpretação da Escritura que espalhasse ódio e dissensão era ilegítima; toda exegese devia ser guiada pelo princípio da caridade.


Os cabalistas combinavam suas meditações místicas sobre a Escritura com vigílias, jejuns e constante auto-exame. Eles tinham de viver juntos em companheirismo, reprimindo o egoísmo e a egolatria porque a ira penetrava na psique como um espírito mau e estilhaçava a harmonia divina de sua alma. Era impossível experimentar a unidade das sefirot nesse estado dividido. O amor dos amigos era fundamental para o ekstasis da Cabala. No Zohar, um dos sinais de uma exegese bem-sucedida é o grito de alegria proferido pelos colegas do intérprete quando ouvem o que experimentam como verdade divina, ou quando os exegetas se beijam um ao outro antes de recomeçar sua viagem mística.


Calvino nunca se cansou de salientar que, na Bíblia, Deus foi condescendente com nossas limitações. A Palavra foi condicionada pelas circunstâncias históricas em que foi pronunciada, de modo que as histórias menos edificantes da Bíblia devem ser vistas em contexto, como fases de um processo em curso. Não havia nenhuma necessidade de explicá-las alegoricamente. A história da criação no Gênesis era um exemplo desse balbucio divino, que adaptava processos imensamente complexos à mentalidade de pessoas sem instrução. Não era surpreendente que a história do Gênesis diferisse das novas teorias dos filósofos instruídos. Calvino tinha grande respeito pela ciência moderna. 

Achava que ela não devia ser condenada simplesmente “porque alguns frenéticos costumam rejeitar com atrevimento tudo que lhes é desconhecido. Pois a astronomia não só é agradável, como seu conhecimento é de muita utilidade: não se pode negar que essa arte revela a admirável sabedoria de Deus”. Era absurdo esperar que a Escritura ensinasse o fato científico; quem desejasse aprender sobre astronomia devia procurar em outro lugar. O mundo natural era a primeira revelação de Deus, e os cristãos deveriam encarar as novas ciências geográficas, biológicas e físicas como atividades religiosas. 


A nova disciplina da sola scriptura não foi capaz de fazer isso pelos cristãos da Europa. Mesmo após sua grande ruptura, Lutero continuou aterrorizado pela morte. Parecia estar constantemente num estado de fúria latente: contra o papa, os turcos, os judeus, as mulheres, os camponeses rebeldes, os filósofos escolásticos e cada um de seus opositores teológicos. Ele e Zwingli envolveram-se numa furiosa controvérsia acerca do significado das palavras de Cristo ao instituir a Eucaristia na última ceia, dizendo: “Este é o meu corpo.” Calvino ficou consternado com a raiva que anuviara as mentes dos dois reformadores e causou uma desavença ímpia que podia e devia ter sido evitada: “Ambos os lados foram completamente incapazes de ter paciência para ouvir o outro, de modo a seguir a verdade sem paixão, onde quer que ela estivesse”, concluiu ele. 

“Ouso afirmar com deliberação que, se suas mentes não tivessem estado em parte exasperadas pela extrema veemência das controvérsias, a divergência não teria sido tão grande que uma conciliação não pudesse ter sido facilmente alcançada.” Era impossível para intérpretes concordar acerca de cada passagem da Bíblia; disputas deviam ser conduzidas com humildade e mente aberta. Contudo, o próprio Calvino nem sempre pôs em prática esses princípios elevados e estava disposto a executar dissidentes em sua própria igreja.


Sola scriptura havia sido um ideal nobre, ainda que controverso. Na prática, porém, ela significava que todo mundo tinha o direito, concedido por Deus, de interpretar aqueles documentos extremamente complexos como bem entendesse. As seitas protestantes proliferaram, cada uma proclamando que somente ela compreendia a Bíblia. Em 1534, um grupo apocalíptico radical em Munster fundou um Estado teocrático independente baseado numa leitura literal da Escritura, que permitia a poligamia, condenava toda violência e proscrevia a propriedade privada. Esse breve experimento durou apenas um ano, mas alarmou os reformadores. 

Se não havia nenhum corpo autorizado para controlar a leitura bíblica, como poderia alguém saber quem estava certo? “Quem dará à nossa consciência informação segura sobre quem está nos ensinando a pura Palavra de Deus, nós ou nossos oponentes?”, perguntou Lutero. “Deve todo fanático ter o direito de ensinar o que bem entende?” , concordou Calvino: “Se todos têm direito de ser juíz e árbitro nessa matéria, nada pode ser considerado certo, e toda a nossa religião estará cheia de incerteza.”


Os antigos reinos feudais tinham de ser transformados em Estados eficientes, centralizados, inicialmente sob monarcas absolutos que podiam impor a unidade pela força. Fernando e Isabel fundiam os antigos reinos ibéricos para formar uma Espanha unida, mas ainda não tinham recursos para conceder aos seus súditos uma liberdade irrestrita. Não havia lugar para corpos autônomos, que se autogovernassem, como as comunidades judaicas. A Inquisição espanhola, que perseguiu tenazmente esses dissidentes, foi uma instituição modernizante, projetada para criar conformidade ideológica e unidade nacional. 

À medida que a modernização avançava, soberanos protestantes em países como a Inglaterra também foram cruéis com seus súditos católicos, vistos como inimigos do Estado. As chamadas Guerras Religiosas (1618-48) foram de fato uma luta de 30 anos da parte dos reis da França e dos príncipes alemães para se tornarem politicamente independentes do Sacro Império Romano e do papado, embora tivessem se complicado com a confrontação entre um calvinismo militante e um catolicismo revigorado, reformado.


Nem todos os colonos americanos partilhavam da visão puritana, mas ela deixou uma marca indelével no ethos dos Estados Unidos. O Êxodo continuaria a ser um texto crucial. Foi citado pelos líderes revolucionários da Guerra da Independência contra a Grã-Bretanha. Benjamin Franklin queria que o “grande selo” da nação retratasse a separação das águas do mar dos Juncos, mas a águia que se tornou o símbolo dos Estados Unidos era não só um antigo emblema imperial como estava também associada ao Êxodo. 

Outros migrantes valeram-se da história do Êxodo da mesma maneira: os mórmons, os africâners da África do Sul e os judeus que fugiram da perseguição na Europa e buscaram refúgio nos Estados Unidos. Deus os salvara da opressão e os estabelecera numa nova terra – algumas vezes à custa de outros.


Um único texto podia ser interpretado para servir a interesses diametralmente opostos. Quanto mais as pessoas eram estimuladas a fazer da Bíblia o foco de sua espiritualidade, mais difícil se tornava encontrar uma mensagem essencial. Ao mesmo tempo que afro-americanos recorriam à Bíblia para desenvolver sua teologia da libertação, a Ku Klux Klan a utilizava para justificar o linchamento de negros. Mas a história do Êxodo não significa libertação para todos. Os israelitas que se rebelaram contra Moisés no deserto foram exterminados; os cananeus indígenas foram massacrados pelos exércitos de Josué. 

Teólogas feministas negras mostraram que os israelitas possuíam escravos; que Deus lhes permitia vender suas filhas para a escravidão; e que Deus realmente ordenou a Abraão que abandonasse a escrava egípcia Hagar no deserto. Sola scriptura podia orientar as pessoas na direção da Bíblia, mas jamais conseguia fornecer uma prescrição absoluta: as pessoas sempre podiam encontrar textos alternativos para apoiar um ponto de vista oposto. No século XVII, as pessoas religiosas estavam se tornando agudamente conscientes de que a Bíblia era um livro muito confuso, e isso numa época em que a clareza e a racionalidade eram valorizadas como nunca.


Outros estudiosos aplicaram suas habilidades ceticamente críticas à Bíblia. Baruch Spinoza (1632-77) um judeu sefardita de ascendência espanhola nascido na liberal cidade de Amsterdam, havia estudado matemática, astronomia e física e as considerava incompatíveis com suas crenças religiosas.  Em 1655 ele começou a expressar dúvidas que perturbaram sua comunidade: as contradições manifestas na Bíblia provavam que ela não podia ser de origem divina; a idéia de revelação era uma ilusão; e não havia nenhuma divindade sobrenatural – o que chamávamos de “Deus” era simplesmente a própria natureza.


Israel ben Eliezer iniciou um movimento de reforma e tornou-se conhecido como o Baal Shem Tov – ou o “Besht” –, um mestre de condição excepcional. No fim de sua vida, havia cerca de 40 mil de seus hassidim (“piedosos”). O Besht afirmava que não havia sido escolhido por Deus porque estudara o Talmude, mas porque recitava as preces tradicionais com tamanho fervor e concentração que alcançava uma união extática com Deus.


Os hassidim expressavam essa consciência acentuada em preces extáticas, ruidosas e agitadas, acompanhadas por gestos extravagantes – tal como saltos mortais que simbolizavam uma total inversão de visão – que os ajudavam a se lançar com todo o seu ser no culto.


O hassidismo despertou arrebatada oposição entre os judeus ortodoxos, que ficaram horrorizados com a aparente difamação do estudo erudito da Torá por parte de Besht. Eles se tornaram conhecidos como os misnagdim (“oponentes”). Seu líder foi Elijah ben Solomon Zalman (1720-97), diretor (gaon) da academia de Vilna na Lituânia. O estudo da Torá era a maior paixão do gaon, mas ele era também versado em astronomia, anatomia, matemática e línguas estrangeiras. Embora estudasse a Escritura de maneira mais agressiva que os hassidim, o método do gaon era místico à sua maneira. 

Ele apreciava o que chamava de “esforço” do estudo, uma intensa atividade mental que o fazia cair num novo nível de consciência e o prendia aos livros a noite toda, os pés imersos em água gelada para impedir que adormecesse. Quando o gaon se permitia cochilar, a Torá penetrava seus sonhos e ele experimentava uma elevação ao divino.


A modernidade secular foi sob muitos aspectos benigna, mas foi também violenta e tendeu a romantizar a luta armada. Entre 1914 e 1945, 70 milhões de pessoas na Europa e na União Soviética morreram em conseqüência de guerra e conflito. Houve duas guerras mundiais, limpeza étnica brutalmente eficiente e atos de genocídio. Algumas das piores atrocidades haviam sido perpetradas pelos alemães, os criadores de uma das mais cultas sociedades da Europa. Não era mais possível presumir que uma educação racional eliminaria o barbarismo. A simples escala do Holocausto nazista e do Gulag soviético revela suas origens modernas. Nenhuma sociedade anterior tinha tecnologia para implementar esses esquemas grandiosos de extermínio.


Michael Fishbane, atualmente professor de estudos judaicos na Universidade de Chicago, acredita que a exegese poderia nos ajudar a recobrar a idéia de um texto sagrado. A crítica histórica da Bíblia não nos permite mais ler as Escrituras de modo sincrônico, vinculando passagens vastamente separadas no tempo. Mas a crítica literária moderna reconhece que nosso mundo interior é criado por fragmentos de muitos textos diferentes, que convivem em nossas mentes, um restringindo o outro. Nosso universo moral é moldado por Rei Lear, Moby Dick e Madame Bovary tanto quanto pela Bíblia. Raramente absorvemos textos inteiros: imagens isoladas, frases e fragmentos vivem em nossas mentes em conjuntos incontáveis, fluidos, que agem e reagem uns sobre os outros. 

De maneira semelhante, a Bíblia não existe inteira em nossas mentes, mas nelas se encontra de forma fragmentária. Criamos nosso próprio “cânone dentro do cânone”, e deveríamos nos assegurar deliberadamente de que nossa seleção é uma coleção de textos benignos. O estudo histórico da Bíblia mostra que houve muitas visões rivais no antigo Israel, cada qual afirmando – muitas vezes de maneira agressiva – ser a versão oficial do jeovismo. Podemos ler a Bíblia hoje como um comentário profético ao nosso próprio mundo de ortodoxias furiosas; mas ela pode nos proporcionar a distância compassiva para compreender os perigos desse dogmatismo estridente e substituí-lo por um pluralismo purificado.


Desde o início, os autores bíblicos se contradisseram uns aos outros, e suas visões conflitantes foram todas incluídas pelos editores no texto final. O Talmude era um texto interativo que, adequadamente ensinado, compelia o estudante a encontrar as próprias respostas. Hans Frei estava certo: a Bíblia foi um documento subversivo, desconfiado da ortodoxia desde o tempo de Amós e Oséias. 

O hábito moderno de citar textos comprobatórios para legitimar políticas e governos não está em consonância com a tradição interpretativa. Como Wilfred Cantwell Smith explicou, a Escritura não era realmente um texto, mas uma atividade, um processo espiritual que introduzia milhares de pessoas à transcendência.

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Fim

14 janeiro, 2021

[Livro] A Bíblia (2007)/ Karen Armstrong - Parte 2




A destruição do primeiro templo em 586 a.C. havia inspirado uma assombrosa explosão de criatividade entre os exilados na Babilônia. A destruição do segundo templo estimulou um esforço literário similar entre os cristãos. Em meados do século II, quase todos os 27 livros do Novo Testamento estavam concluídos. Comunidades já citavam cartas de Paulo como se fossem Escritura, e leituras de uma das biografias de Jesus que estavam em circulação haviam se tornado costumeiras durante o culto de domingo. 

Os evangelhos atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João acabariam sendo escolhidos para o cânone, mas havia muitos outros. O evangelho de Tomás (c. 150) era uma coleção de ditos secretos de Jesus que dariam um “conhecimento” (gnosis) redentor a seus discípulos. Havia evangelhos, agora perdidos, dos ebionitas, nazarenos e hebreus, que alimentavam as comunidades cristãs judaicas. Havia também muitos evangelhos “gnósticos”, representando uma forma de cristianismo que enfatizava a gnosis e distinguia um Deus inteiramente espiritual (que mandara Jesus como seu enviado) e um demiourgos, que criara o mundo material corrupto. Outros Escritos não sobreviveram: um evangelho conhecido pelos estudiosos como Q, porque foi a fonte (alemão: quelle) para Mateus e Lucas; várias antologias de ensinamentos de Jesus; e um relato de seu julgamento, tortura e morte.


As Escrituras cristãs foram redigidas em momentos diferentes, em regiões diversas e para audiências muito díspares, mas compartilhavam uma linguagem e um conjunto de símbolos, derivados da Lei e dos Profetas, bem como de textos do final do período do Segundo Templo. Elas reuniam idéias que originalmente não tinham conexão umas com as outras – Filho de Deus, Filho do Homem, Messias e reino – numa nova síntese. Os autores não demonstravam isso de maneira lógica, mas simplesmente justapunham essas imagens de forma tão repetida que elas se fundiam na mente do leitor. Não havia uma visão uniforme de Jesus. Paulo o chamara de “Filho de Deus”, mas usara o título em seu sentido judaico tradicional. Jesus era um ser humano que gozava de uma relação especial com Deus, como os antigos reis de Israel, e fora elevado por ele a uma condição singularmente alta. 

Paulo nunca afirmou que Jesus era Deus. Mateus, Marcos e Lucas, conhecidos como os “sinóticos”, porque “vêem as coisas juntas”, também usaram o título “Filho de Deus” dessa maneira, mas eles sugeriram igualmente que Jesus era o “Filho do Homem” de que falara Daniel, o que lhe dava uma dimensão escatológica. João, que representou uma tradição cristã diferente, viu Jesus como a encarnação da Palavra e Sabedoria de Deus, que existira antes da criação do mundo. Quando os editores finais do Novo Testamento reuniram esses textos, não ficaram incomodados com as discrepâncias. Jesus havia se tornado um fenômeno demasiado imenso nas mentes dos cristãos para ser preso a uma única definição.


Como todos os Escritos joaninos, o Apocalipse é deliberadamente obscuro, e seus símbolos seriam ininteligíveis para os estranhos. É um livro tóxico e, como veremos, atrairia pessoas que, como as igrejas joaninas, sentiam-se excluídas e ressentidas. Era também controverso, e alguns cristãos relutaram em incluí-lo no cânone. Mas quando os editores definitivos decidiram inseri-lo no fim do Novo Testamento, ele se tornou o término triunfante de sua exegese pesher das Escrituras hebraicas. Transformou o relato histórico da origem do cristianismo num apocalipse orientado para o futuro. A Nova Jerusalém substituiria a velha: “Não vi templo algum na cidade, pois seu templo era o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro.” O judaísmo e seus símbolos mais sagrados haviam sido substituídos por um vitorioso cristianismo militante.


Hoje as Escrituras têm má reputação. Terroristas usam o Corão para justificar atrocidades, e alguns afirmam que a violência de suas Escrituras tornam os muçulmanos cronicamente agressivos. Os cristãos fazem campanha contra o ensino da teoria evolucionista porque ela contradiz a história bíblica da Criação. Judeus sustentam que, por Deus ter prometido Canaã (Israel moderno) para os descendentes de Abraão, medidas agressivas contra os palestinos são legítimas. Houve um revival das Escrituras que se intrometeu na vida pública. Oponentes secularistas da religião afirmam que as Escrituras geram violência, sectarismo e intolerância; impedem as pessoas de pensar por si mesmas e estimulam a ilusão. Se a religião prega compaixão, por que há tanto ódio nos textos sagrados? É possível ser um “crente” hoje, quando a ciência solapou tantos ensinamentos bíblicos?


O consenso entre os estudiosos é que a narrativa do Êxodo não é histórica. Há muitas teorias. O Egito dominara as cidades-estado cananéias desde o século XIX a.C., e havia se retirado no fim do século XIII, pouco antes que as primeiras povoações aparecessem na região montanhosa até então inabitável. Ouvimos falar pela primeira vez num povo chamado “Israel” nessa região por volta de 1200 a.C. Alguns estudiosos afirmam que os israelitas eram refugiados das cidades-estado em declínio nas planícies costeiras. Talvez tenham se juntado a eles outras tribos vindas do sul, que levavam consigo seu deus Jeová, que parece ter tido origem nas regiões em torno do Sinai, ao sul. Os que haviam vivido sob o domínio egípcio nas cidades cananéias talvez tenham tido a impressão de que haviam sido libertados do Egito – mas em seu próprio país.


A religião israelita posterior iria se tornar apaixonadamente monoteísta, convencida de que Jeová era o único Deus. Mas nem J nem E eram monoteístas. Originalmente Jeová fora membro da Assembléia Divina dos “santos”, que El, o poderoso deus de Canaã, havia presidido com sua consorte Aserá. Cada nação da região tinha sua própria divindade padroeira, e Jeová era “o santo de Israel”. No século VIII, Jeová havia expulsado El da Assembléia Divina e reinava sozinho sobre uma multidão de “santos”, guerreiros do exército celeste. Nenhum dos outros deuses podia se igualar a Jeová na fidelidade a seu povo. Nisso ele não tinha pares, não tinha rivais.


Um número significativo dos Escritos pertencia a uma escola distinta tanto da Lei quanto dos profetas. No Oriente Médio antigo, sábios ligados à corte como mestres ou conselheiros tendiam a ver toda a realidade moldada por um vasto princípio subjacente de origem divina. Os sábios hebreus chamavam isso de Chochmá, “Sabedoria”. Todas as coisas – as leis da natureza, a sociedade e os eventos nas vidas das pessoas – se conformavam a esse projeto celeste, que nenhum ser humano poderia jamais apreender em sua totalidade. Mas os sábios que devotavam suas vidas à contemplação da Sabedoria acreditavam que, ocasionalmente, a viam de relance. Alguns expressavam sua visão com máximas vigorosas como: “Um rei dá estabilidade a um país pela justiça, um extorsionário o leva à ruína”, ou “O homem que agrada ao vizinho estende uma rede sob seus pés”. A tradição da Sabedoria tinha originalmente pouca relação com Moisés e o Sinai, mas era associada ao rei Salomão, reputado por esse tipo de argúcia, e três dos Kethuvim foram atribuídos a ele: os Provérbios, o Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. Os Provérbios eram uma coleção de aforismos de senso comum, semelhantes aos dois citados acima. O Eclesiastes, uma meditação flagrantemente cínica, via todas as coisas como “vaidade” e parecia solapar toda a tradição da Torá, ao passo que o Cântico dos Cânticos era um poema erótico sem conteúdo espiritual aparente.


O autor do Primeiro Livro de Henoc imaginou Deus rasgando em pedaços a terra e a mosaica revelação no monte Sinai para começar de novo com uma tabula rasa. O autor do Livro dos Jubileus, amplamente lido no século II d.C., foi perseguido em razão da crueldade de alguns dos Escritos. Havia Deus realmente tentado exterminar a raça humana no Dilúvio, ordenado a Abraão que matasse o próprio filho e afogado o exército egípcio no mar dos Juncos? Ele concluiu que Deus não intervinha diretamente em assuntos humanos e que o sofrimento que vemos por toda parte à nossa volta era a obra de Satã e seus demônios.


Jesus e seus discípulos vinham da Galiléia, no norte da Palestina. Depois de sua morte, mudaram-se para Jerusalém, provavelmente para estar a postos quando o reino chegasse, já que todas as profecias declaravam que o templo seria o pivô da nova ordem. Os líderes de seu movimento eram conhecidos como “os Doze”: no reino, governariam as 12 tribos de Israel reconstituído. Os integrantes do movimento liderado por Jesus participavam, juntos, de cultos, todos os dias, no templo, mas encontravam-se também para refeições comunais em que afirmavam sua fé na chegada iminente do reino. Continuavam a viver como judeus ortodoxos e devotos. Como os essênios, não tinham propriedade privada, partilhavam seus bens de maneira igualitária e dedicavam suas vidas aos últimos dias. Parece que Jesus recomendara pobreza voluntária e zelo especial pelos pobres; que a lealdade ao grupo devia ser mais valorizada que laços de família; e que o mal devia ser enfrentado com não-violência e amor. Os cristãos deviam pagar seus impostos, respeitar as autoridades romanas e não deviam nem cogitar em luta armada. Os seguidores de Jesus continuavam a reverenciar a Torá, a guardar o Shabat, e a observância das leis dietéticas era uma questão de extrema importância para eles. Como o grande fariseu Hillel, contemporâneo mais velho de Jesus, eles ensinavam uma versão da Regra de Ouro, que acreditavam ser o alicerce da fé judaica: “Assim, trate sempre os outros como gostaria que eles o tratassem; esta é a mensagem da Lei e dos Profetas.”

Paulo nem por um instante pensou que fazia uma “Escritura”; como estava convencido de que Jesus retornaria ainda durante a sua vida, nunca imaginou que as gerações futuras estudariam cuidadosamente suas epístolas. Era considerado um mestre consumado, mas tinha plena consciência de que seu temperamento explosivo significava que não era apreciado em toda parte.


Mas Paulo nunca sugeriu que os judeus devessem cessar de observar a Torá, porque isso os teria posto fora da aliança. Israel recebera a preciosa dádiva da revelação no Sinai, do culto no templo, e o privilégio de serem “filhos” de Deus, desfrutando uma intimidade especial com Ele – e Paulo prezava tudo isso. Quando ele invectivava amargamente contra os “judaizantes”, não estava condenando os judeus ou o judaísmo em si mesmos, mas aqueles cristãos judeus que queriam que os gentios fossem circuncidados e observassem integralmente a Torá. Como outros sectários no final do período do Segundo Templo, Paulo estava convencido de que somente ele possuía a verdade.


A destruição do primeiro templo em 586 a.C. havia inspirado uma assombrosa explosão de criatividade entre os exilados na Babilônia. A destruição do segundo templo estimulou um esforço literário similar entre os cristãos. Em meados do século II, quase todos os 27 livros do Novo Testamento estavam concluídos. Comunidades já citavam cartas de Paulo como se fossem Escritura, e leituras de uma das biografias de Jesus que estavam em circulação haviam se tornado costumeiras durante o culto de domingo. Os evangelhos atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João acabariam sendo escolhidos para o cânone, mas havia muitos outros. O evangelho de Tomás (c. 150) era uma coleção de ditos secretos de Jesus que dariam um “conhecimento” (gnosis) redentor a seus discípulos. Havia evangelhos, agora perdidos, dos ebionitas, nazarenos e hebreus, que alimentavam as comunidades cristãs judaicas. Havia também muitos evangelhos “gnósticos”, representando uma forma de cristianismo que enfatizava a gnosis e distinguia um Deus inteiramente espiritual (que mandara Jesus como seu enviado) e um demiourgos, que criara o mundo material corrupto. Outros Escritos não sobreviveram: um evangelho conhecido pelos estudiosos como Q, porque foi a fonte (alemão: quelle) para Mateus e Lucas; várias antologias de ensinamentos de Jesus; e um relato de seu julgamento, tortura e morte.



Como todos os Escritos joaninos, o Apocalipse é deliberadamente obscuro, e seus símbolos seriam ininteligíveis para os estranhos. É um livro tóxico e, como veremos, atrairia pessoas que, como as igrejas joaninas, sentiam-se excluídas e ressentidas. Era também controverso, e alguns cristãos relutaram em incluí-lo no cânone. Mas quando os editores definitivos decidiram inseri-lo no fim do Novo Testamento, ele se tornou o término triunfante de sua exegese pesher das Escrituras hebraicas. Transformou o relato histórico da origem do cristianismo num apocalipse orientado para o futuro. A Nova Jerusalém substituiria a velha: “Não vi templo algum na cidade, pois seu templo era o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro.” O judaísmo e seus símbolos mais sagrados haviam sido substituídos por um vitorioso cristianismo militante. 


Nos primeiros anos do século I, o grande sábio fariseu Hillel viera da Babilônia para Jerusalém, onde pregou ao lado de seu rival Shamai, cuja versão do farisaísmo era mais rigorosa. Diz-se que um dia um pagão aproximou-se de Hillel e prometeu converter-se ao judaísmo caso ele conseguisse resumir toda a Torá enquanto se equilibrava numa perna só. Equilibrando-se numa perna só, Hillel respondeu: “Não faz a teu próximo o que for odioso para ti mesmo. Esta é toda a Torá, e o restante não passa de comentário. Vai estudá-la.” Esse foi um espantoso e deliberadamente controverso exemplo de midrash. A essência da Torá era a recusa disciplinada de infligir dor a outro ser humano. Tudo mais que estava nas Escrituras era meramente “comentário”, uma glosa à Regra de Ouro.


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18 novembro, 2020

[Livro] A Bíblia (2007)/ Karen Armstrong - Parte 1




  • Obs.: as citações do livros foram marcadas com uma fonte diferente.

O livro é um bom resumo sobre a trajetória da Bíblia, que é cheia de polêmicas:

Hoje as Escrituras têm má reputação. Terroristas usam o Corão para justificar atrocidades, e alguns afirmam que a violência de suas Escrituras tornam os muçulmanos cronicamente agressivos. Os cristãos fazem campanha contra o ensino da teoria evolucionista porque ela contradiz a história bíblica da Criação. Judeus sustentam que, por Deus ter prometido Canaã (Israel moderno) para os descendentes de Abraão, medidas agressivas contra os palestinos são legítimas. Houve um revival das Escrituras que se intrometeu na vida pública. Oponentes secularistas da religião afirmam que as Escrituras geram violência, sectarismo e intolerância; impedem as pessoas de pensar por si mesmas e estimulam a ilusão. Se a religião prega compaixão, por que há tanto ódio nos textos sagrados? É possível ser um “crente” hoje, quando a ciência solapou tantos ensinamentos bíblicos?

Um dos maiores problemas é interpretar mitos bíblicos como passagens literais:


O consenso entre os estudiosos é que a narrativa do Êxodo não é histórica. Há muitas teorias. O Egito dominara as cidades-estado cananéias desde o século XIX a.C., e havia se retirado no fim do século XIII, pouco antes que as primeiras povoações aparecessem na região montanhosa até então inabitável. Ouvimos falar pela primeira vez num povo chamado “Israel” nessa região por volta de 1200 a.C. Alguns estudiosos afirmam que os israelitas eram refugiados das cidades-estado em declínio nas planícies costeiras. Talvez tenham se juntado a eles outras tribos vindas do sul, que levavam consigo seu deus Jeová, que parece ter tido origem nas regiões em torno do Sinai, ao sul. Os que haviam vivido sob o domínio egípcio nas cidades cananéias talvez tenham tido a impressão de que haviam sido libertados do Egito – mas em seu próprio país.

O pentateuco, os cinco primeiros livros da bíblia, teriam inicialmente sido orais e depois de séculos registrados por escrito por escribas desconhecidos que atribuíram a Moisés seu conteúdo. Esse conteúdo teria sido reeditado por diferentes gerações, sem uma menção expressa no texto. J e E seriam diferentes escritores que seguiriam tradições orais diferentes, mas que tiveram seus textos reunidos no mesmo livro.

A religião israelita posterior iria se tornar apaixonadamente monoteísta, convencida de que Jeová era o único Deus. Mas nem J nem E eram monoteístas. Originalmente Jeová fora membro da Assembléia Divina dos “santos”, que El, o poderoso deus de Canaã, havia presidido com sua consorte Aserá. Cada nação da região tinha sua própria divindade padroeira, e Jeová era “o santo de Israel”. No século VIII, Jeová havia expulsado El da Assembléia Divina e reinava sozinho sobre uma multidão de “santos”, guerreiros do exército celeste. Nenhum dos outros deuses podia se igualar a Jeová na fidelidade a seu povo. Nisso ele não tinha pares, não tinha rivais.
Desde o começo, escribas de diferentes tradições divergentes gerariam conflitos na leitura do texto:

Um número significativo dos Escritos pertencia a uma escola distinta tanto da Lei quanto dos profetas. No Oriente Médio antigo, sábios ligados à corte como mestres ou conselheiros tendiam a ver toda a realidade moldada por um vasto princípio subjacente de origem divina. Os sábios hebreus chamavam isso de Chochmá, “Sabedoria”. Todas as coisas – as leis da natureza, a sociedade e os eventos nas vidas das pessoas – se conformavam a esse projeto celeste, que nenhum ser humano poderia jamais apreender em sua totalidade. Mas os sábios que devotavam suas vidas à contemplação da Sabedoria acreditavam que, ocasionalmente, a viam de relance. Alguns expressavam sua visão com máximas vigorosas como: “Um rei dá estabilidade a um país pela justiça, um extorsionário o leva à ruína”, ou “O homem que agrada ao vizinho estende uma rede sob seus pés”. A tradição da Sabedoria tinha originalmente pouca relação com Moisés e o Sinai, mas era associada ao rei Salomão, reputado por esse tipo de argúcia,16 e três dos Kethuvim foram atribuídos a ele: os Provérbios, o Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. Os Provérbios eram uma coleção de aforismos de senso comum, semelhantes aos dois citados acima. O Eclesiastes, uma meditação flagrantemente cínica, via todas as coisas como “vaidade” e parecia solapar toda a tradição da Torá, ao passo que o Cântico dos Cânticos era um poema erótico sem conteúdo espiritual aparente.
Livros como o atribuído a Enoque, patriarca bíblico misterioso, não foram incluídos na Bíblia, pois traziam uma concepção Divina diferente:

O autor do Primeiro Livro de Henoc imaginou Deus rasgando em pedaços a terra e a mosaica revelação no monte Sinai para começar de novo com uma tabula rasa. O autor do Livro dos Jubileus, amplamente lido no século II d.C., foi perseguido em razão da crueldade de alguns dos Escritos. Havia Deus realmente tentado exterminar a raça humana no Dilúvio, ordenado a Abraão que matasse o próprio filho e afogado o exército egípcio no mar dos Juncos? Ele concluiu que Deus não intervinha diretamente em assuntos humanos e que o sofrimento que vemos por toda parte à nossa volta era a obra de Satã e seus demônios.

Mesmo os ensinamentos de Jesus não trouxeram consenso interpretativo, seja para Judeus ou não judeus (gentios):

Jesus e seus discípulos vinham da Galiléia, no norte da Palestina. Depois de sua morte, mudaram-se para Jerusalém, provavelmente para estar a postos quando o reino chegasse, já que todas as profecias declaravam que o templo seria o pivô da nova ordem. Os líderes de seu movimento eram conhecidos como “os Doze”: no reino, governariam as 12 tribos de Israel reconstituído. Os integrantes do movimento liderado por Jesus participavam, juntos, de cultos, todos os dias, no templo, mas encontravam-se também para refeições comunais em que afirmavam sua fé na chegada iminente do reino. Continuavam a viver como judeus ortodoxos e devotos. Como os essênios, não tinham propriedade privada, partilhavam seus bens de maneira igualitária e dedicavam suas vidas aos últimos dias.10 Parece que Jesus recomendara pobreza voluntária e zelo especial pelos pobres; que a lealdade ao grupo devia ser mais valorizada que laços de família; e que o mal devia ser enfrentado com não-violência e amor. Os cristãos deviam pagar seus impostos, respeitar as autoridades romanas e não deviam nem cogitar em luta armada. Os seguidores de Jesus continuavam a reverenciar a Torá,13 a guardar o Shabat, e a observância das leis dietéticas era uma questão de extrema importância para eles. Como o grande fariseu Hillel, contemporâneo mais velho de Jesus, eles ensinavam uma versão da Regra de Ouro, que acreditavam ser o alicerce da fé judaica: “Assim, trate sempre os outros como gostaria que eles o tratassem; esta é a mensagem da Lei e dos Profetas.”

A situação não se resolveu com Paulo:

Paulo nem por um instante pensou que fazia uma “Escritura”; como estava convencido de que Jesus retornaria ainda durante a sua vida, nunca imaginou que as gerações futuras estudariam cuidadosamente suas epístolas. Era considerado um mestre consumado, mas tinha plena consciência de que seu temperamento explosivo significava que não era apreciado em toda parte. (...)
Mas Paulo nunca sugeriu que os judeus devessem cessar de observar a Torá, porque isso os teria posto fora da aliança. Israel recebera a preciosa dádiva da revelação no Sinai, do culto no templo, e o privilégio de serem “filhos” de Deus, desfrutando uma intimidade especial com Ele – e Paulo prezava tudo isso.33 Quando ele invectivava amargamente contra os “judaizantes”, não estava condenando os judeus ou o judaísmo em si mesmos, mas aqueles cristãos judeus que queriam que os gentios fossem circuncidados e observassem integralmente a Torá. Como outros sectários no final do período do Segundo Templo, Paulo estava convencido de que somente ele possuía a verdade.
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25 junho, 2020

[Doc] The Family - Democracia Ameaçada (2019)



Um bom documentário é como filme carregado de informação tecnicamente confiável.

Baseado em dois livros do autor americano Jeff Sharlet, "The Family" narra a trajetória de grupo religioso secreto e conservador, conhecido como a Família, que influencia a política em Washington, D.C., desde os anos 50 para satisfazer suas ambições globais.

Um slogan comum do grupo é "Jesus e mais nada", ou seja, nada além de Jesus; mas sua teologia não fica clara no documentário, ainda mais quando se menciona que eles não se importam com a maioria dos livros da Bíblia.

Eles leem apenas os Evangelistas (os 4 evangelhos) e Atos dos Apóstolos, o qual rebatizam como “Atos dos Embaixadores”.

Diferentemente de outras denominações evangélicas, a Família tem seu foco em líderes políticos (eles meio que ignoram os pobres) e até poucos anos não tinham nem uma página na internet atestando sua existência como instituição religiosa.

Segundo o filme, a ideia era manter a organização como uma "não-organização": algo "invisível", como a Máfia Italiana. É dito que essa invisibilidade tornaria a instituição mais poderosa. Além disso, pode-se especular que seria mais fácil controlar as finanças e evitar o pagamento de tributos de uma igreja que movimentasse milhões de dólares de maneira discreta e sem propaganda.
Com centenas de grupos espalhados pelo mundo e muito poder político, a Família seria responsável por influenciar líderes mundiais a implementar sua agenda fundamentalista, que é pouco clara, pois a instituição não diz exatamente a que veio, a não ser falar de Jesus pelo mundo.

Diz-se que sua meta seria evitar políticas pró-aborto e pró-gays em países esquecidos como Uganda e Romênia. Isso não fica provado, talvez porque a Família agiria informalmente, como um grupo de amigos, por baixo dos panos e qualquer formalidade. Então, o documentário especula bastante coisa.

Enfim, um documentário bem instrutivo.

Recomendo.

Grande abraço!

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24 junho, 2020

[Guest Post] 3, 4, 5, 6, 7 (2020)/Jotabê Blogson Crusoe

Photo by Dhivakaran S from Pexels


Eu creio em Deus. Este é o primeiro postulado da minha fé
Ela é como a chama bruxuleante de uma vela
Presa a um pratinho pela própria parafina que derrete.


Não há vendaval que a apague.
Curva-se e oscila com a força do vento, mas resiste
Fica ali iluminando as sombras
Alimentando as esperanças, estimulando os sonhos


Eu preciso mais de Deus que ele de mim
Talvez eu tenha genes religiosos muito resistentes
Talvez por isso fique dividido entre a crença
Na existência de algo imponderável
Ou em sua pura negação


Hoje tenho crenças básicas
Eu creio em Deus
O que quer que Ele seja ou como se manifeste
Criei uma teologia própria, só minha, sem atravessadores
Minha crença talvez se pareça com as que surgiram
Na aurora da humanidade


Não tem rebuscamento intelectual
Nem é vestida com as roupas cerimoniais
Que inventaram para as religiões
(É bom acreditar em alguma coisa que não se compreende)
Minha fé é como um cobertor em dias frios.
Não altera a temperatura ambiente
Mas me aquece quando preciso. E isso me basta.

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03 novembro, 2019

A Religião e Eu

 

pexels

Introdução 

 

Uma forma de privar você mesmo de uma experiência é, com efeito, ter a expectativa dela. Uma outra é ter um nome para ela antes de ter a experiência. Carl Jung afirmou que uma das funções da religião é nos proteger da experiência religiosa. Assim é porque na religião formal tudo é concretizado e formulado. Entretanto, devido à sua natureza, uma tal experiência é a experiência que somente você pode ter. (Isto És Tú (2002)/ Joseph Campbell)


Todo mundo tem opinião sobre religião, política e futebol. 

De futebol não sei nada e nem saberei. De política tenho que estudar mais. 

Sobre religião divido minhas conclusões nesse post.


Minha Experiência 


Nos meus primeiros dez anos de vida, minha família passou por diversas religiões:


  • Catolicismo - quando criança - fui batizado por um padre;
  • Religiões Afro (umbanda, candomblé):  quando criança - me davam coca-cola e biscoito para eu ir e quando chegava no terreiro não tinha nada pra fazer. Então ficava brincando por ali. Não cheguei a fazer a cabeça.
  • Espirismo kardecista: quando criança - tinha que ficar do lado de fora esperando a sessão terminar.
  • Protestanismo pentecostal: cresci participando de diferentes denominações. Fui batizado (novamente) e contabilizo que fui membro por 25 anos.

Mundo atual



Atualmente continuo crendo nas palavras de Cristo e busco interpretar a Bíblia e parte da realidade a partir delas.

Acho paradoxal que o mercado religioso tenha transformado em milionários alguns sacerdotes e não vejo futuro para mim hoje dentro das igrejas: elas pararam no tempo. 

Isso não significa que eu não tenha obtido experiência positivas ou feito amigos lá dentro (um de meus maiores amigos é pastor batista). Apenas significa que minha vida é maior que uma parte, a igreja.

Isso também não significa que outras pessoas obtenham uma experiência positiva a partir das Igrejas. Ninguém é igual.

Destaco que eventualmente visito algum culto religioso, mas não consigo mais me enxergar como um membro engajado. Prefiro assistir sermões pelo youtube. 

Dízimo 


Pagar dízimo: nunca paguei nem pagarei, prefiro a IF. Já dei ofertas, mas 10% de meus ganhos é absurdo.

 

Engraçado que muita gente acha fundamento em uma lei judaica tribal que era aplicada a milhares de anos atrás em outro continente para continuar cobrando do povo. Triste. Não acho absurdo torrar o salário com qq coisa (drogas, prostituição, chocolate etc), mas acreditar que Deus realmente quer seu dinheiro é complicado... O que ele vai fazer com essa grana?

 




Conclusão 


Respeito todas as religiões (participei de várias), mas acredito que o Brasil seguirá com o tempo o mesmo caminho que países da Europa seguiram: o fechamento de igrejas e o esquecimento de denominações religiosas em razão de sua irrelevância cada vez maior nos tempos atuais.

Claro que isso ainda vai demorar muito aqui, pois o Brasil é um país atrasado e com uma população iletrada, mas é a tendência.

Enfim viva sua vida do jeito que quiser e até o fim.

Grande abraço!


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08 outubro, 2019

[Livro] Confissões do Pastor (1997)/Caio Fábio

 




Era uma vez um jovem rebelde, arruaceiro e dissoluto que amava "alucinadamente" as mulheres e fumava maconha e cheirava cocaína no mesmo ritmo que dirigia sua moto - mais do que uma alma perdida, era a promessa de um legítimo cafajeste.
Um dia, esse moço acordou aos gritos achando que estava com uma cobra sucuri enrolada no corpo, mordendo-lhe o braço e inoculando-lhe veneno. Era uma visão, claro, não uma cena real, mas foi como se fosse. Caio Fábio tinha então 19 anos, já estivera perto da morte por acidente ou suicídio, e aquela foi a última vez que, simbolicamente, se sentiu possuído pelo demônio.
No dia seguinte, decidiu, iria nascer de novo: "Vou viver com Jesus e ser um homem de Deus para o resto da minha vida." Convertido, o jovem acabou se tornando pastor protestante, assim como seu pai, um agnóstico que certo dia, lendo a Bíblia, também se convertera e abandonara tudo, inclusive um próspero escritório de advocacia do qual era sócio o senador Bernardo Cabral, ex- ministro e presidente da CPI dos precatórios.
As memórias que Caio Fábio lança agora encerram mais do que a conversão de uma alma desgarrada que escolheu como referência não um presbiteriano como ele, mas um santo, Santo Agostinho, cujas Confissões pontuam como epígrafes os capítulos do livro, criando um curioso contraponto católico a essa saga protestante.
Encerram mais do que isso. As Confissões são também a emocionante aventura de uma vocação pastoral sem temor e sem preconceitos, que sobe os morros, entra nos presídios, freqüenta palácios, catequiza traficantes, batiza governador, é perseguida politicamente, e nada abala a sua crença de que o Evangelho é imbatível, de que tem o poder de "mudar bichos, monstros e pervertidos". (ZUENIR VENTURA)

Li lá pelo começo da década de 2000.

Excelente livro. Se algum dia tiver tempo, leio a nova edição.

Recomendo a leitura.

Grande abraço!

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09 junho, 2019

[Lista] Plano de Leitura - Módulo 1 (Religião)

Michelangelo - A Criação de Adão



Religião



OBRA 
STATUS
RESENHA


XX-X a.C. Autor desconhecido – O livro de Toth



XX-X a.C. Autor desconhecido – A epopéia de Gilgamesh





VIII a.C. Hesíodo – Teogonia




X-II a.C. Vários autores –  Velho Testamento: 
O cântico dos cânticos (X a.C.
 .





 

,Pentateuco (VI-IV a.C.)

(Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio)


 



X-II a.C. Vários autores –  Velho Testamento: 
Jó (VI-IV a.C.)





X-II a.C. Vários autores – Velho Testamento:  
 Josué (VI a.C.)







X-II a.C. Vários autores – Velho Testamento: 
Samuel (VI a.C.) 







X-II a.C. Vários autores – Velho Testamento:  
Isaías (VI a.C.)







X-II a.C. Vários autores –  Velho Testamento: 
 Ezequiel (VI a.C.)


, Daniel (II a.C.)




V a.C. Vyasa – Mahabharata






Obras relacionadas

Não constavam na lista original de livros, mas agregam valor




Fator Melquisedeque 

D. Richardson 

Para quem é cristão, dá uma uma visão cristã da História com base em uma teoria que mescla teologia e antropologia.



A Bíblia (2007)/ Karen Armstrong - excelente e didático livro.



[Palestra] Gênesis de Moisés (2010)/José Monir Nasser - palestras didáticas e gratuitas no youtube.  Excelente material introdutório.


























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