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30 outubro, 2019

[Livro] De Que Serve Ser Culto(2016)/ Normand Baillargeon




Introdução


Esse é o livro que eu precisava ler para melhorar minha caminhada em busca de conhecimento, pois pela cultura e a educação, nos tornamos melhores.


Lições



(...) não são tantos os saberes relativos a certos conteúdos culturais que caracterizam o detentor de cultura geral , e sim essa segunda natureza que faz com que ele saiba de imediato o que é e o que não é apropriado. Essa segunda natureza nos ensina a como nos comportamos em sociedade. Graças a ela, se pelo menos você adquirir cultura geral, logo saberá se é permitido ou não falar de futebol nesta ou naquela companhia, e o que convém dizer a respeito onde for possível mencioná-lo; também saberá, na ponta do cérebro, se assim posso dizer, o que pensar sobre os filmes de Woody Allen e os westerns spaghetti, quer você goste deles ou não, conheça ou não uns e outros, pouco importa. 
Ora, essas proibições e esses sinais verdes, esses terrenos minados e esses por onde, ao contrário, é bem visto e até recomendado passar, tudo isso é essencialmente balizado pela divisão da sociedade em classes, de modo que adquirir cultura geral é dotar-se das referências e da sensibilidade que permitem ou não, instantaneamente, se reconhecer nela e sentir-se como que em casa.


O caráter classista dos conteúdos culturais, a arbitrariedade de sua escolha, o papel que representam na reprodução das desigualdades sociais, tudo isso constitui uma primeira razão, válida até prova do contrário, para se demonstrar grande desconfiança por essa cultura geral.


(...) a cultura erudita, assim como nossa cultura no sentido amplo e como a cultura geral que ela promove, tenderam - e ainda tendem - a excluir as preocupações, os interesses e as realizações da metade feminina da humanidade. (...) E está claro que argumentação semelhante à que acabo de expor a respeito das mulheres poderia ser apresentada sobre homossexuais, as lésbicas, os transgênero e suas experiências e contribuições para o patrimônio comum.


(...) a cultura geral continua a ser literária e humanista, no sentido em que se entende a palavra desde o renascimento. Nisso, é culpada por outra série de graves omissões, que lhe tiraram qualquer pretensão de ser de fato geral, devido ao pouco espaço que dá às ciências empíricas e experimentais. (...) encarar hoje a cultura geral sem admitir como uma obviedade que ela comporta uma sólida cultura científica é algo que me parece propriamente irreal.


(...) um número considerável de pessoas não tem cultura geral, não só porque, como afirmei, o que se entende por essa expressão limita-se, no mais das vezes, a uma cultura literária e humanista à qual falta cultura científica para ser uma verdadeira cultura geral, como também porque os que possuem essa cultura científica só tem, por sua vez, pouca cultura literária e humanista.


Entre as ciências cujo conhecimento é indispensável para quem quer possuir cultura geral, há uma, em que gostaria de insistir, que deve ocupar um lugar à parte. Não é empírica nem experimental, como as que acabo de mencionar: trata-se da matemática, como se terá adivinhado.

Desconfio que muita gente falharia nesse pequeno teste: sofrem de uma mal a que chamo de inumerismo, o que é uma espécie equivalente para os números, e mais geralmente para a matemática, do bem conhecido e deplorável iletrismo. Porém, o inumerismo tem a peculiaridade de não parecer vergonhoso para todos e todas que dele padecem. Melhor: quase se gabariam do mal. 
Por pouco, a frase "Eu, de matemática, nunca entendi nada", seria dita com um toque de orgulho, e até mesmo proferida como um título de glória. Desnecessário dizer que se o lugar ocupado pelas ciências na concepção usual da cultura geral é bem diminuto, o que é atribuído à matemática é quase inexistente. Que pena! Como pretender ser culto quando se sofre de inumerismo? Ignorar o que são, digamos, um modo, uma média, um desvio padrão, equivale a não saber o que são um soneto, uma novela ou um editorial.


(...) a cultura geral deveria exercer em quem a possui um conjunto de efeitos observáveis examinando-se simplesmente como essa pessoa leva a própria vida, a qual deveria, se podemos dizer, estar impregnada dessa cultura. É que a cultura geral adquirida não é em si letra morta, coisa inerte: é viva, atuante e transformada em profundidade quem a possui e em quem ela vive. 
Para começar, a cultura geral deveria contribuir para a ampliação da perspectiva que ele ou ela tem do mundo e que lhe permite escapar do enclausuramento , geralmente tão pesado, do aqui e agora. Em suma, ao ampliar o círculo da experiência humana que nos tornamos capazes de captar, de compreender, e muitas vezes de amar, essa cultura geral é, como diz tão lindamente Renaud, tudo o que faz com Que você possa viajar do seu quarto/ Em torno da humanidade.


Ora, parece-me que isso decorre da suposta aquisição de certas virtudes (para retomar um termo antigo e fora de moda).
Entre essas virtudes, algumas me parecem capitais. Alargar as perspectivas, cognitivas e outras, que podemos ter sobre o mundo por meio da cultura, livrar-se dos acasos acidentais do aqui e agora que a as acompanham, tudo isso deveria, na verdade, alimentar o reconhecimento da fragilidade de nosso saber, de nossa insignificância individual face a extensão da experiência humana, das limitações e contingências de nossos julgamentos, sempre revogáveis, em suma, alimentar o que chamarei de certa "humildade epistêmica". 
Esta, em troca, nutre uma perpétua atitude crítica, que nada considera como sendo óbvio e examina sem cessar tudo o que se apresenta como verdadeiro ou estabelecido, e que por todo lado exerce essa  atitude crítica, até sobre si mesma. Essas virtudes - humildade, falibilidade, perspectiva crítica - estão, a meu ver, entre as mais importantes, são talvez as principais virtudes que a autêntica cultura geral deveria proporcionar.


Temos acesso ao mundo via uma espécie de janela através da qual um número limitado de itens pode ser tratado: na verdade, calcula-se justamente que são sete, mais ou menos dois, o número de itens que pode conter essa janela, a qual chamamos de nossa "memória de trabalho". Depois disso, ficamos intelectualmente submergidos.


Disso decorre que, para pensar de maneira crítica e criativa em determinada questão, deve-se possuir um saber pertinente nesse campo que permita agrupar dados e superar as limitações de nossa memória de trabalho. E quando discutimos com outra pessoa, esse saber é inevitavelmente posto em jogo: se não o possuímos, ficamos mais ou menos excluídos da conversa democrática da qual não entendemos uma vírgula. Essas conclusões reforçam a ideia da necessidade de uma bagagem cultural comum, devido a razões intrínsecas, mas também políticas.


Agora devemos abrir nossa visão da cultura geral a fim de que escape às críticas enunciadas contra ela (preconceito de classe, sexismo, racismo, elitismo, ocidentalocentrismo e etnocentrismo). A determinação dos conteúdos da nova cultura geral deverá, para isso, se alimentar dos diversos trabalhos, alguns bem recentes que abriram caminhos em variadas direções, permitindo neutralizar as tendências e exclusões evocadas no primeiro capítulo.

O cânone que daí emerge não é definido de uma vez por todas e traduz a dinâmica das transformações que caracterizam nossas sociedade. Aliás, o que pertence a esse cânone que daí emerge não é definido de uma vez por todas e traduz a dinâmica das transformações que caracterizam nossas sociedades. Aliás, o que pertence a esse cânone nele figura menos pelas respostas apresentadas do que pelas perguntas feitas e pela maneira, crítica, como as respostas são apresentadas.


(...) Hirst enumera as seguintes formas de saber: matemática, as ciências físicas, as ciências físicas, as ciências humanas, a história, a religião, as belas artes e a literatura, a filosofia, a moral. (Em textos posteriores, ele revisará um pouco essa lista, mas aqui não é lugar para nos determos nessas revisões.)

Tal educação científica, em meu espírito, ainda é diferentes da tecnológica - esta que nos prepara para usar as tecnologias em nossas vidas privadas e no trabalho. O que deveríamos visar é a compreensão dos princípios e dos métodos da ciências, e mais que seu vocabulário especializado (embora sem negligenciá-lo), os fatos e teorias científicas. Todos, ao saírem da escola, deveriam saber o que caracteriza a ciência como método, nada ignorar de seus princípios e ter feito ao menos um giro qualitativo pelos principais resultados das diferentes ciências.


Essa educação deveria se concentrar nas "grandes ciências" e, portanto, introduzir à física, à astronomia, à química, às ciências da terra e à biologia (inclusive ecologia científica). Deveria, enfim, apresentar a ciência como uma aventura intelectual, exaltante e exemplar, mas também como uma aventura humana, e para isso inscrever fortemente a ciência em seus contextos sociais e históricos (...).


A matemática ocupa um lugar à parte nas formas de saber e na cultura geral assim como a desejo.

Sem entrar nos pormenores do conteúdo desse aspecto da cultura geral, sublinharei que as estatísticas e as probabilidades ocupam um lugar central nessa formação, mas também, desnecessário dizer, a geometria e as noções de álgebra - embora não o cálculo. A aritmética, evidentemente, não está ausente do corpus.

O lugar da literatura (e das artes em geral, porém em graus variáveis para cada uma) na cultural geral é inconteste e não perderei tempo em defendê-lo, como infelizmente se deve fazer o tempo todo para as ciências e a matemática.

(...) a historicização dos conceitos, das teorias, das ideias, é um caminho a privilegiar a qualquer tempo. Na verdade, só ela proporciona a convicção de que aquilo que está em pauta é, sempre, um mundo humano, que se constrói, pouco a pouco com seus avanços e recuos, seus êxitos e fracassos.

(...) o que caracteriza a filosofia como forma de saber? Conjecturo que é o fato de que nela se apresentam problemas singulares que são, em grande medida, de natureza conceitual. (...) esse problemas se caracterizam pela indeterminação dos métodos adequados para enfrentá-los: na verdade, a filosofia se distingue por uma pluralidade de enfoques, e quando um filósofo ou uma filósofa escolhe um deles, sabe que deverá defender essa decisão contra aqueles que fizeram outras escolhas, cuja legitimidade, aliás, ele ou ela pode muito bem acatar.

Nenhuma cultura geral digna do nome es´ta completa sem ter se confrontado com esses conceitos, problemas, métodos e teorias que a filosofia, e só ela, apresenta.

(...) em matéria de produções culturais além da relatividade interpessoal, intercultural e histórica dos juízos e gostos, existem de fato normas universais e padrões para se julgar a excelência. É verdade que os juízos que apresentamos ao aplicar essas normas não são definitivos; são tão passíveis de revisão quanto os da ciência são falíveis: mas reconhecer  isso não equivale a admitir que essas normas não existem. A meu ver, é David Hume que, nessa controvérsia, indica a boa direção, observando que os juízos de gosto de pessoas que satisfazem a certas condições precisas tornam essas pessoas verdadeiros juízes de gosto, e seus veredictos reunidos, a norma.


São cinco essas condições.

A primeira é a delicadeza da imaginação, ou seja, a sensibilidade do espírito para as emoções mais sutis, a capacidade de sentir e distinguir belezas (ou feiuras) ali onde outro espírito, privado dessa característica ou só a possuindo em menor grau, não as distingue. 
A segunda é a prática, que pelo exercício fortalece essa delicadeza; assim chegamos, inevitavelmente, a estabelecer comparações entre os objetos que julgamos, e essas comparações são indispensáveis à formação do gosto e da capacidade de julgar.
Daí a terceira condição que Hume lista: a comparação. 
No entanto, diversos fatores podem perverter nosso juízo: nossa amizade ou inimizade por uma ou um artista, nossa incapacidade de nos colocarmos na perspectiva daqueles e daquelas a quem a obra está ou estava destinada, e vários outros; uma indispensável ausência de preconceitos é, portanto, a quarta condição que Hume cita.
Finalmente, como corrigir essas ameaças pelo exercício de um julgamento saudável? Segundo Hume, graças a uma dose de bom senso, único meio capaz de preservar as indispensáveis faculdades intelectuais que o julgamento de gosto emprega, ainda que não sejam as primeiras. Por esse bom senso, ou seja, pela razão, assimilamos como um conjunto as partes isoladas de uma obra, as correspondências mútuas entre as partes, rememoramos o objetivo visado pela obra e as regras que presidem à sua confecção.

Além da educação, a mídia é o grande vetor pelo qual uma sociedade inscreve sua preocupação com a cultura geral de seus membros e a qualidade da conversa democrática. mas a comercialização e a preocupação com a rentabilidade que atualmente a movem, e em que o aumento da audiência é o único horizonte, unidas à concentração cada vez maior de seus proprietários... Tudo isso alimenta inquietações legítimas quanto à compatibilidade dessas armas de diversão maçiça com um ideal de cultura geral comum e difundida.

(...) longe de contribuir para a exigência da conversa democrática, os meios de comunicação tendem, na verdade, a desemprenhar um papel essencialmente propagandístico e a propor uma visão unívoca e simplificada do mundo, a qual está amplamente a serviço das instituições dominantes.

Resumindo, e aqui evocaremos Montaigne, todo educador visa a formar uma cabeça bem feita: deveria, portanto, visar, não a enchê-la de conhecimentos, informações e "simples fatos" rapidamente caducos, mas desenvolver pela prática essas indispensáveis habilidades de alto nível que, em seguida, o aluno poderá utilizar em diferentes contextos - isto é, transferir - e ao longo de toda a sua vida.

 A tragédia é que - e Montaigne bem sabia - sem esses simples fatos, essas faculdades intelectuais não conseguem se revelar, e elas não existem independentemente deles: sem uma rica bagagem de conhecimentos em cada forma de saber, não há pensamento crítico, criador, etc., nessa forma de saber.

Portanto, volta-se à longa, pesada mas indispensável tarefa de transmitir, pacientemente, pouco a pouco, os diversos conteúdos da cultura geral que decidimos fazer alguém adquirir.


Conclusão 


Enfim, não basta querer (sem gostar) de cultura geral, pois conforme é citado no livro:

"O verbo ler não suporta o imperativo. Aversão que com alguns outros: o verbo amar... o verbo sonhar".


Foi uma leitura bem legal nas férias desse ano em São Pedro da Aldeia/RJ.

Grande abraço!

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