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05 julho, 2020

[Guest Post] Sobre o padrão de vida e os "hiatos" da economia (2020)/ Mago Economista

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O padrão de vida que uma pessoa pode ter, em termos materiais, é  determinado por sua renda. O erro que muitos cometem no mundo todo é querer gastar quase tudo, ou até mais, do que ganham. 

A lição óbvia (e imortal) das finanças pessoais: nunca gaste mais do que você ganha. Ela é óbvia e tão velha quanto o dinheiro, mas vemos todos os dias inúmeras pessoas que parecem ser incapazes de entender isso. Algumas por burrice, hedonismo, etc. e outras, infelizmente, por serem extremamente pobres e seus ganhos não cobrirem sequer os custos mínimos de vida. 

Para aqueles que podem, entretanto, é muito importante aplicar a velha lição e ajustar seu padrão de vida a ela.


Por exemplo, se você ganha um salário líquido (é o líquido que importa, porque é com ele que você se acostuma a viver no dia a dia) de R$ 4.000,00, você não pode ter um "padrão de vida de R$ 4.000,00". Você precisa ter um padrão de vida de R$ 3.000,00 ou menos. Eu diria que de R$3.500,00 no máximo, porque o aporte precisa fazer parte do orçamento doméstico. 

No exemplo acima, ganhando 4K e guardando 1K, a cada 4 meses você guardaria 1 salário, ou seja, em um ano você  conseguiu guardar 3 salários, então mantendo este ritmo por 4 anos, você terá 1 ano de salário economizado (fora os juros), caso não tenha precisado sacar nada para cobrir algum problema, o que é uma reserva de emergência interessante, pois caso perca o emprego você aguentaria ficar 1 ano sem receber enquanto se requalifica e procura outro trabalho, e no meio tempo ainda vai poder fazer bicos para não consumir tanto da sua reserva (ifood, uber, qualquer bico honesto).  

Na verdade, se considerarmos um trabalhador em regime CLT, que tem o 13º salário, você conseguiria montar essa reserva em 3 anos, caso conseguisse economizar 100% do 13º. Vejam esta simples demonstração:

1º ano: 1K/mês *12 meses + 4K (do 13º) = 16K (4 salários)
2º ano: 1K/mês *12 meses + 4K (do 13º) = 32K (8 salários)
3º ano: 1K/mês *12 meses + 4K (do 13º) = 48K (12 salários)

Por isso eu recomendo a todos aqueles que puderem: guardem 100% do 13º salário (ou usem-no para pagar dívidas).

O exemplo do salário líquido de R$4.000,00 foi apenas para facilitar a conta. A matemática é o que importa: poupando 25% do salário mensal e 100% do 13º, consegue-se fazer em 3 anos uma reserva de emergência equivalente a 1 ano de salário, o que é muito bom para começar, pois dá uma relativa segurança ao trabalhador, diminui um pouco o medo de ser demitido e essa maior confiança pode resultar em um rendimento melhor no trabalho. Se o salário líquido é de R$2.000,00, então o padrão de vida desta pessoa deveria ser de R$1.500,00 para que ela possa guardar R$500,00 por mês (25%) e assim sua reserva no final de 3 anos seria de R$ 24K, o que equivale a 1 ano de salário.

E se a pessoa guardasse um terço do salário? É uma fração "cabalística" que eu já vi muito ser recomendada por aí. Vejamos ela aplicada no exemplo dos R$4K:


1º ano: R$ 1.333,33 *12 + R$4K (do 13º) = R$ 20K (5 salários)

2º ano: 40K (10 salários)
3º ano: R$ 60K (15 salários)

Ao final de 3 anos a pessoa que economizasse 1 terço do salário teria 15 salários guardados, e teria atingido a meta de 1 ano de salários na metade do segundo ano de economia.


Na minha opinião pessoal, essa reserva de emergência deveria ficar aplicada no ativo de renda fixa mais líquido possível, pois ela não tem o objetivo de render e dar ganhos de capital, mas de suprir emergências, salvar o trabalhador de apertos que surgem no cotidiano, como por exemplo uma consulta médica cara, a compra de um remédio caro, uma multa de trânsito, uma cota extra inesperada do condomínio, uma obra necessária para se fazer em casa, etc. que são gastos que fogem de nosso controle (exceto a multa, que temos algum grau de controle). 

Por isso, ao contrário do que "gurus" de finanças e analistas "especialistas" falam, eu recomendaria que pelo menos uma parte deste valor ficasse na poupança, e esta deve ser uma parte que a pessoa se sinta confortável e segura (por exemplo, 1 ou 2 salários líquidos, de modo que haja 1 ou 2 meses de "sobrevida" para pronto uso), e o restante aplicado em alguma renda fixa que possa ser sacada rapidamente em caso de emergências realmente sérias ou em caso de desemprego. A importância de algum pequeno valor ser deixado na poupança é a extrema liquidez da mesma: o valor pode ser transferido para a conta-corrente aos sábados, domingos e feriados, inclusive de madrugada, sem depender de intermediários, horários bancários, etc. o que pode te salvar de apertos.

Porém esse raciocínio não é possível de ser aplicado para muitas pessoasHá uma certa faixa salarial na qual não é possível ter custos de vida que permitam poupar 25% ou mais do salário, talvez nem 10% (outra porcentagem "cabalística"), dependendo do caso.  Não sei onde exatamente essa fronteira se encontra, pois ela depende do custo de vida em cada cidade (e ele pode ser muito diferente de cidade para cidade), mas acho seguro dizer que quem ganha 1 salário mínimo não é capaz de economizar nada caso tenha como renda apenas o próprio salário. 

Isto é o que eu chamo de um "hiato" na economia: um abismo que separa diferentes realidades econômicas, difícil de ser atravessado. Neste caso, o hiato é a realidade das pessoas que vivem com salário mínimo: seus rendimentos são incapazes de cobrir totalmente os custos mínimos de vida (moradia, luz, água, gás, alimentação, internet e saúde) e  tais pessoas provavelmente não conseguem trocar de emprego porque seus rendimentos também não lhes permitem investir em qualificação. 

Na minha opinião, ganhar 1 salário mínimo é, grosso modo, uma forma de escravidão moderna, e cabe a cada um que se encontra nesta situação "comprar sua liberdade" dando um jeito de aumentar sua renda. Não adianta nada pedir ao governo que aumente o salário mínimo com uma canetada: ao fazer isso, os custos de todas as empresas subirão simultaneamente, provocando 2 efeitos: demissões e aumentos de preços de produtos (não se iludam, o custo sempre é repassado ao consumidor), o que anula automaticamente qualquer "ganho" obtido com o aumento do salário mínimo. Na minha humilde opinião, o salário mínimo não deveria nem existir, porque ele destrói empregos.

Um salário mínimo, dependendo de onde a pessoa mora, não é capaz nem de pagar o aluguel do apartamento mais humilde, então não é surpreendente vermos em grandes cidades (Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília são as que tem em geral os aluguéis mais caros) pessoas que, mesmo com emprego, literalmente moram na rua durante a semana e vão para suas residências (caso as tenham) nos fins de semana, às vezes em uma cidade menor vizinha, por não serem capazes de pagar o aluguel na mesma cidade onde trabalham e/ou não serem capazes de cobrir os gastos com transporte que incorreriam se fizessem o trajeto casa-trabalho-casa todos os dias. Qualquer evento que fuja da normalidade é devastador para o orçamento de uma pessoa que viva assim, forçando-as a se endividarem e gerando uma bola de neve que culminará em sua miséria.


A dura realidade é: se você ganha salário mínimo, não adianta investir em nada que não seja a sua própria qualificação. E se você mora sozinho, sem ninguém para dividir as despesas, pode ser que nem isso seja possível. Quem ganha salário mínimo, caso seja possível, deveria continuar morando com os pais, e investir o máximo possível de sua renda em sua formação, e estar disposto a aguentar uma jornada dupla, trabalhando durante o dia e estudando à noite, por algum tempo - de dois a cinco anos (a duração de um curso técnico ou de uma faculdade) e fazendo bicos sempre que puder, para complementar a renda. Caso não seja possível morar com os pais, deveria se juntar com outra pessoa que também tenha alguma renda (nem que seja de 1 salário mínimo) para dividir os custos de habitação e focar na formação pessoal, do mesmo jeito. 


Outro "hiato" na economia: ainda é bastante difícil juntar R$ 100.000,00 (uma das primeiras milestones da finansfera), porém esta não é mais, há muito tempo, uma quantia que realmente mude a vida da pessoa, e geralmente servirá no máximo para comprar um imóvel (provavelmente só para dar entrada na compra) - eu sei que para quem ganha 1 salário mínimo 100 mil reais é uma quantia que "muda a vida" da pessoa, mas quem realmente vive com salário mínimo simplesmente não consegue juntar 100 mil reais só com seu trabalho. Só se morasse com os pais e fosse totalmente bancado por eles, mas mesmo assim teria que economizar 100% do salário e demoraria por volta de 8 anos, a não ser que desse muita, mas muita sorte na renda variável, o que é bastante improvável. Quem conseguiria viver assim, sem gastar nada durante quase uma década? Será que os pais aceitariam isso? Será que os pais teriam condições para isso? 


Para os poucos brasileiros que são capazes de juntar R$100K através de trabalho honesto, 100 mil reais é "pouco" dinheiro, e ao mesmo tempo não é: servem para dar segurança, caso não sejam usados para adquirir imóvel (e dependendo da localização serviriam somente como entrada, e talvez nem isso) e, conforme o post anterior, não garantiriam nem 1 salário mínimo de proventos de FII, embora rendessem uma boa renda passiva (provavelmente algo entre 500 e 700 reais). Ainda assim, repito, juntar R$ 100K é um hiato - um abismo difícil de ser atravessado.


Para os poucos capazes de juntar  R$100K  com seu trabalho (e muitos da blogosfera das finanças são capazes), eu concito: façam caridade. Para um porteiro, uma diarista, um vendedor de doce na rua, etc. R$ 50 a mais no orçamento fazem muita diferença, e para vocês não. Ajudem estas pessoas. Comprem doces do homem que fica o dia inteiro na rua com seu pote de paçocas, se puderem comprem um estoque novo para ele poder vender, vocês estarão dando dignidade para ele, que é mais importante que dinheiro. Deem R$20, R$ 30 a mais para a diarista que faz faxina em suas residências para ajudá-la a pagar a passagem e não ter que consumir do valor ganho com a faxina. Não hesitem em contribuir para a caixinha de Natal do porteiro do prédio onde vocês moram, sejam generosos. Ajudem seus parentes que estão em dificuldades, ainda mais hoje em dia por causa da pandemia. Às vezes é porque faltam R$100,00 para inteirar o aluguel que uma pessoa é despejada e passa a viver na rua, e daí começa uma verdadeira avalanche que destrói sua vida. Ajudem os pequenos comerciantes, ajudem os pequenos negócios, para protegerem os empregos que eles geram. Façam caridade, da maneira como puderem, mas façam caridade. É dever de todos perante o Criador.


Forte Abraço! Fiquem com Deus!




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